EVOLUÇÃO HISTÓRICA DOS OBJETIVOS DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL RELACIONADOS À SAÚDE PÚBLICA NO MUNICÍPIO DE CONTAGEM

Evolução histórica dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável relacionados à Saúde Pública no município de Contagem

Ana Luiza Alves sobrinho¹; Isabela de Oliveira Silva²; Luciana Godoy Pellucci de Souza³; Edson Alexandre de Queiroz4

RESUMO

O desenvolvimento sustentável é compreendido em três dimensões: a dimensão social, a ambiental e a econômica. Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) ampliam aspectos sociais, ambientais e de intersetorialidade no enfrentamento dos diversos problemas da humanidade. No município de Contagem os ODS são praticados através do Plano Estratégico Contagem 2030, com o objetivo de nortear o planejamento e traçar ações para se alcançar uma cidade mais sustentável e segura até 2030 (CONTAGEM, 2018). O objetivo deste trabalho foi atualizar os indicadores dos eixos dos ODS com viés para os eixos mais relacionados à saúde pública do município de Contagem em série histórica; analisar criticamente cada indicador; propor ações de melhoria nos indicadores que por ventura estiverem piorando na série histórica, e por fim, construir uma plataforma para acompanhamento da evolução dos ODS para a comunidade em geral. Metodologia: trata-se de um estudo analítico tendo o município de Contagem como unidade de análise. Os dados relativos aos eixos da ODS foram retirados da base do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e da Secretaria de Planejamento de Contagem-MG. Os resultados preliminares dos indicadores são: Porcentagem de Cobertura de Equipe de Saúde da Família (ESF): 46,9% (2007);47,99%(2010); 65,9% (2019); *65,99%(2025); *71% (2030). Porcentagem de gastos com saúde: 29,69% (2015); *29,32% (2020); *30,93% (2025); *32,54% (2030). Porcentagem de População em domicílios com água encanada: 91,88% (1991); 97,73% (2000); 99,61% (2010); *100% (2020); *100%(2030). Porcentagem de coleta seletiva porta a porta residencial: 5,03%(2013); 4,6% (2017); 6,1% (2019); *7,2% (2030). Índice de Gini:  0,49 (2000); 0,48 (2010); *0,48 (2020); *0,48 (2030). Taxa de mortalidade infantil: 11,85(2006); 11,36(2016); *8,59(2025); *7,64 (2030). Taxa de Esgotamento: 73,8%(2000); 95,4%(2010); *93,3%(2020); *100%(2030). Os valores com asterisco (*) significam tendência.  Após a análise dos dados conclui-se que os indicadores que atingirão a meta serão: Taxa de mortalidade infantil, Esgoto, Porcentagem de População em domicílios com água encanada, de acordo com a análise de tendência e mantidos o ritmo histórico de melhoria. As metas do Plano Estratégico que não vão ser alcançadas são: Porcentagem de Cobertura de Equipe de Saúde da Família (ESF), Porcentagem de coleta seletiva porta a porta residencial, Índice de Gini. Para propagar as informações relativas a alguns indicadores dos ODS foi criado uma plataforma virtual para acompanhamento da evolução dos ODS para a comunidade em geral. O endereço eletrônico é: https://5f7b0c289abc6.site123.me/. Esse trabalho ajuda a entender melhor questões do cotidiano que necessitam de intervenções para redução das desigualdades sociais, além de contribuir para melhoria da qualidade de vida, aumentando a criticidade da população e a consciência de seus direitos como cidadãos. Percebeu-se que os indicadores de ODS aqui trabalhados são interdependentes entre si e devem ser abordados em conjunto para alcançar as metas propostas.

Palavras-chave: Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Saúde Pública. Indicadores de saúde.

ABSTRACT

Sustainable development is understood in three dimensions: the social, environmental and economic dimensions. The Sustainable Development Goals (SDGs) expand social, environmental and intersectoral aspects in tackling the diverse problems of humanity. In the municipality of Contagem, the SDGs are practiced through the Strategic Plan Contagem 2030, with the objective of guiding the planning and outlining actions to achieve a more sustainable and safe city by 2030 (CONTAGEM, 2018). The objective of this work was to update the indicators of the SDG axes with bias for the axes most related to public health in the municipality of Contagem in a historical series; critically analyze each indicator; propose actions to improve indicators that may be getting worse in the historical series, and finally, build a platform to monitor the evolution of the SDGs for the community in general. Methodology: this is an analytical study with the municipality of Contagem as the unit of analysis. The data related to the ODS axes were taken from the base of the Brazilian Institute of Geography and Statistics and from the Planning Department of Contagem-MG. The preliminary results of the indicators are: Percentage of Family Health Team (FHS) Coverage: 46.9% (2007); 47.99% (2010); 65.9% (2019); * 65.99% (2025); * 71% (2030). Percentage of spending on health: 29.69% (2015); * 29.32% (2020); * 30.93% (2025); * 32.54% (2030). Percentage of population in households with running water: 91.88% (1991); 97.73% (2000); 99.61% (2010); * 100% (2020); * 100% (2030). Percentage of selective collection door to door residential: 5.03% (2013); 4.6% (2017); 6.1% (2019); * 7.2% (2030). Gini Index: 0.49 (2000); 0.48 (2010); * 0.48 (2020); * 0.48 (2030). Infant mortality rate: 11.85 (2006); 11.36 (2016); * 8.59 (2025); * 7.64 (2030). Exhaustion Rate: 73.8% (2000); 95.4% (2010); * 93.3% (2020); * 100% (2030). Values with an asterisk (*) signify a trend. After analyzing the data, it is concluded that the indicators that will reach the target will be: Infant mortality rate, Sewage, Percentage of Population in households with running water, according to the trend analysis and maintaining the historical pace of improvement. The goals of the Strategic Plan that are not going to be achieved are: Percentage of Family Health Team (ESF) Coverage, Percentage of selective collection door to door residential, Gini Index. To spread the information related to some SDG indicators, a virtual platform was created to monitor the SDG evolution for the community in general. The email address is: https://5f7b0c289abc6.site123.me/. This work helps to better understand everyday issues that need interventions to reduce social inequalities, in addition to contributing to improving the quality of life, increasing the criticality of the population and the awareness of their rights as citizens. It was noticed that the SDG indicators worked on here are interdependent with each other and must be addressed together to achieve the proposed goals.

Keywords: Sustainable Development Goals. Public health. Health indicators.

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1 Estudante da Funec – Unidade CENTEC, maynekayla@outlook; 2 Estudante da Funec – Unidade CENTEC, sabrinalima1562@gmail.com; 3 – Bacharel em Farmácia UFMG/Funec – Unidade CENTEC, luciana.pellucci@yahoo.com.br; 4 –Doutor em Enfermagem UFMG/Funec – Unidade CENTEC/Autor de correspondência: edalexqueiroz@yahoo.com.br.

INTRODUÇÃO

A agenda mundial da Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento se iniciou mais firmemente com a realização da RIO 92 (conhecida como “A Cúpula da Terra” ou “ECO92”). Nessa ocasião, a Cúpula da Terra definiu Desenvolvimento Sustentável como a satisfação das necessidades da atual geração sem comprometer a capacidade de satisfação das necessidades das gerações futuras. Vinte anos após, com o objetivo de avaliar os progressos das diretrizes pactuadas em 1992, foi realizada a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (conhecida como “RIO+20”). A fim de ser possível mensurar os avanços, o desenvolvimento sustentável foi compreendido em três dimensões: a dimensão social, a ambiental e a econômica. Nas análises e planos de ação, a saúde foi colocada dentro da dimensão social. Em 2012, essa visão foi reconhecida no documento final da RIO+20, em seu parágrafo 138: “Reconhecemos que a saúde é uma condição prévia e um resultado e indicador de todas as três dimensões do desenvolvimento sustentável. Entendemos que os objetivos do desenvolvimento sustentável só podem ser alcançados na ausência de uma alta prevalência de doenças transmissíveis e não transmissíveis debilitantes, e onde as populações podem atingir um estado de bem-estar físico, mental e social. Estamos convencidos de que a ação sobre os determinantes sociais e ambientais da saúde, tanto para os pobres como para os vulneráveis e para toda a população, é importante para criar sociedades inclusivas, equitativas, economicamente produtivas e saudáveis. Apelamos à plena realização do direito ao gozo do mais alto padrão possível de saúde física e mental.” (ONU, 2012). Desta forma o conceito de saúde ampliou-se e aliou-se a aspectos sociais e ambientais.

Considerando a abrangência conceitual e realística são vários e grandes os desafios nas diferentes áreas: na área social, a pobreza e as iniquidades persistem na esfera global e na brasileira; na área econômica, as crises financeiras e de emprego; e na área ambiental, os impactos das mudanças globais, a deterioração dos ecossistemas e a redução dos recursos hídricos são exemplos de questões a serem enfrentadas.

O Brasil dispõe de um número de dados e indicadores ambientais, de desenvolvimento social e econômico, demográficos e de saúde monitorados por meio de seus sistemas de informação ou em coletas de dados sistemáticas feitas por meio de censos ou em pesquisas amostrais nacionais. Os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) foram elaborados segundo as diretrizes da Organização das Nações Unidas (ONU) que, na ocasião da Declaração do Milênio, delineou os oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) a serem alcançados, até 2015, por meio de ações de combate à pobreza e à fome, promoção da educação, da igualdade de gênero, de políticas de saúde, saneamento, habitação e meio ambiente. A partir de 2015 o ODM deu lugar aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) que traz objetivos nas mesmas linhas do ODM e amplia aspectos sociais e ambientais e de intersetorialidade no enfrentamento dos diversos problemas da humanidade (OPAS, 2014). Os eixos no ODS são: Vida Saudável, Proteção Social, Vida Segura, Desenvolvimento Sustentável e Urbanização, Mobilidade Sustentável, Nova Educação, Governança Integrada e por fim Inovação e Competitividade.

O município de Contagem em 2018 publicou um documento construído coletivamente e multisetorial baseado no ODS intitulado: Plano Estratégico Contagem 2030, com o objetivo de nortear o planejamento e traçar ações para se alcançar uma visão futurística de uma cidade mais inovadora, sustentável e segura até 2030 (CONTAGEM, 2018). Neste Documento são criadas inúmeras diretrizes para cada eixo do ODS, com metas estabelecidas e indicadores das mesmas. Muitas ações já estão em andamento conforme informa o próprio plano estratégico de 2018. Até o momento da escrita deste projeto ainda não havia sido confeccionado nenhum relatório agrupado com os indicadores e resultados anteriores a 2018 nem após este mesmo ano. Considerando que os eixos do ODS são os orientativos seguros para transformarmos a realidade das cidades de todo o país em cidades mais inovadoras, sustentáveis e seguras nos propomos a atualizar os indicadores principais anteriores a 2018 e os mais atuais disponíveis com viés para os eixos mais relacionados à saúde pública do município de Contagem, tais como: Vida Saudável, Proteção Social, Desenvolvimento Sustentável e Urbanização. Após a atualização será feita a análise crítica e contextualizada de cada indicador.

Segue abaixo os indicadores por eixos mais estreitamente relacionados à saúde pública:

1 – Vida saudável

– Cobertura populacional estimada pelas equipes de Saúde da Família;

– Número de óbitos de mães residentes / 100 mil nascidos vivos;

– Número de óbitos de menores de um ano de idade na população residente / mil nascidos vivos;

– Número de óbitos de residentes com menos de cinco anos de idade / Número de nascidos vivos de mães residentes, multiplicado por mil;

– Número de óbitos por Doenças Crônicas Não Transmissíveis – DCNT em residentes de Contagem, na faixa etária de 30 a 69 anos/população de 30 a 69 anos, multiplicado por 100 mil;

2 – Desenvolvimento Sustentável e Urbanização

– Quantidade de domicílios com acesso à rede geral de distribuição de água/Total de domicílios;

– Índice de atendimento de esgotamento sanitário;

– Volume de esgoto coletado tratado / Volume de esgoto coletado;

– Índice de Perdas na Distribuição de Água tratada;

– Número de domicílios com acesso a serviço de coleta de resíduos domésticos / Número total de domicílios do município;

– Número de bairros com coleta seletiva de resíduos porta a porta / Número de bairros do município;

– Volume de resíduos secos desviados para a reciclagem / volume total de resíduos secos gerados no município;

– Domicílios urbanos em face de quadra com arborização / Domicílios urbanos totais;

– Domicílios urbanos em face de quadra com boca de lobo e pavimentação e meio-fio e calçada / Domicílios urbanos totais;

– Domicílios urbanos em face de quadra com rampa para cadeirante / Domicílios urbanos totais;

O Observatório Socioeconômico de Contagem é um centro de conhecimento e difusão de informações socioeconômicas do município viabilizado pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico da Prefeitura Municipal de Contagem. Essa iniciativa visa produzir e difundir a pesquisa junto à sociedade e auxiliar na formulação de políticas adequadas aos setores público e privado que poderão tomar decisões a partir de informações concretas, possibilitando dessa forma, a redução dos riscos envolvidos no processo de análise de investimentos. Sua criação surge como resposta à ausência de um sistema integrado de informações relevantes para elaboração de políticas públicas, permitindo monitorar a evolução, a competitividade e a dinâmica da economia do município. Devido a complexidade de sua organização, os trabalhos do Observatório Socioeconômico se desenvolverão no curto, médio e longo prazo. A produção de estudos e análises irá se basear nas fontes de dados disponíveis dos institutos oficiais de pesquisa dos governos municipal, estadual e federal (CONTAGEM, 2020).

OBJETIVOS

– Atualizar os indicadores dos eixos dos ODS mais relacionados à saúde pública do município de Contagem em série histórica;

– Analisar criticamente cada indicador;

– Propor ações de melhoria nos indicadores que por ventura estiverem piorando na série histórica;

– Construir uma plataforma para acompanhamento da evolução dos ODS para a comunidade em geral.

METODOLOGIA

Trata-se de um estudo analítico tendo o município de Contagem como unidade de análise. Os dados relativos aos eixos da ODS foram retirados da base do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e da Secretaria de Planejamento de Contagem-MG. O processamento, a análise de tendência dos dados e os gráficos foram confeccionados no Excel Office Microsoft e no GraphPad Prism, versão 6. A função tendência retorna valores ao longo de uma tendência linear. Ele se encaixa em uma linha reta (usando o método de quadrados mínimos) para o known_y e o known_x da matriz. TENDÊNCIA retorna os valores de y juntamente com essa linha para a matriz de new_x que você especificar.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

                O eixo “vida saudável” trabalha indicadores relacionados à assistência em saúde e indicadores de mortalidade. è sabido que a assistência à saúde promove está diretamente relacionada com a qualidade de vida de uma população, ou seja, quanto mais houver acesso aos serviços de saúde melhores as taxas de adoecimento. A figura 1A mostra a série histórica da porcentagem de cobertura da população pela estratégia de Saúde da Família (ESF). Essa estratégia foi e é parte importante na qualidade da assistência em saúde, principalmente para aquelas populações com forte desigualdade social. A meta de cobertura da população de Contagem é 80% em 2030. Se a tendência de crescimento se confirmar ao longo dos anos teremos apenas 71,8% da população atendida por essa estratégia, portanto um percentual abaixo da meta. Nossa proposta, para aumentar essa cobertura de ESF, seria reorientar recursos financeiros da saúde, priorizando uma estratégia central para o reordenamento da atenção primária à saúde. Claro que várias ações já estão sendo desenvolvidas neste sentido, porém essa reorientação de recursos deve perpassar uma revisão geral de todos os segmentos da saúde para não comprometer outras áreas em detrimento do aumento dessa cobertura. Na figura 1B a meta da taxa de mortalidade é menos de 8 mortes por 1000 crianças menores de um ano. Se o ritmo se mantiver a meta será cumprida. A mortalidade em crianças menores de 5 anos por 1000 apresenta tendência de queda até 2030 com a meta sendo atingida facilmente (figura 1C). Já a mortalidade materna por 100.000 nascidos vivos (figura 1D) não teria sua meta alcançada, muito provavelmente pela instabilidade dos dados na série histórica, uma vez que o número de mortes de mãe anualmente  (denominador) é relativamente pequeno e qualquer variação nesse número interfere diretamente nesta taxa de mortalidade. A série histórica do número de morte materna tem mínimo de 1 e máximo de 9, portanto interferindo enormemente na taxa calculada (SIM, 2020).

Figura 1 – Dados do Eixo Vida Saudável. A – Porcentagem de cobertura pela Estratégia Saúde da Família (ESF) no município de Contagem de 2007 a 2019, com tendência calculada até 2030. B – Taxa de mortalidade infantil de 2006 a 2018 com tendência calculada até 2030. C – Taxa de mortalidade em crianças residentes com menos de 5 anos de idade / Número de nascidos vivos de mães residentes, multiplicado por mil. D – Número de óbitos de mães residentes / 100 mil nascidos vivos. As linhas tracejadas representam as metas de cada indicador. Os números fora dos gráficos representam: em itálico indicam a meta; sublinhados representam a tendência calculada para 2030. * Início do cálculo da tendência. Fontes: Ministério da Saúde (DATASUS) e http://www.contagem.mg.gov.br/observatorio/saude/.

                Outro aspecto que influencia diretamente na qualidade de vida das populações é a capacidade de tratamento de seus esgotos. A tendência dos serviços de manejo do esgoto na cidade de Contagem se encaminha para a universalização, porém ainda com alguns problemas que devem ser abordados para atingimento das metas. Pela análise de tendência a população urbana atendida com esgotamento deverá atingir 100% (fig. 2A). O índice de coleta de esgoto não é e nem será para toda a população de acordo com nossa análise, porém o índice de tratamento de esgoto é e deverá ser de 100%. No índice de tratamento de esgoto deve haver alguma inconsistência na fonte de dados ou somente o esgoto que é coletado é tratado para apresentar o índice máximo de 100% (fig. 2B). O volume de esgoto tratado e coletado vem subindo ao longo da série histórica. Um fato que requer nota é que o volume de esgoto extravasado subiu bastante até o ano de 2014 e a partir de então mostra queda gradativa (fig. 2C). Esse tipo de esgoto pode interferir na saúde da população, além de comprometer o meio ambiente e todos os animais que nele contém. Aqui indicamos fortemente ações no sentido de dirimir esse problema. A figura 2D apresenta dados também conflitantes quando analisamos todo o contexto do saneamento básico, pois o fato de haver extravasamento de esgoto e o índice de tratamento de esgoto não ser 100% (fig. 3C) não é coerente que a taxa de esgoto tratado/coletado seja 100%.

                Com a aprovação da lei n° 14.026, de julho de 2020 que atualiza o marco legal do saneamento básico, sua expectativa é:  acesso à água potável que deverá atender 99% da população e em relação a coleta e tratamento de esgoto onde o percentual é de até 90%, até 31/12/2033. Nossa análise de tendência mostra que se o ritmo de crescimento da taxa de esgotamento permanecer constante, aliado ao novo marco legal a meta será alcançada em Contagem.

Figura 2 – Indicadores operacionais de esgotos. A – Comparação entre a população total e a população atendida com esgotamento sanitário (ES001, ES026) de 1996 a 2018 com tendência calculada até 2030. B – IN015_AE – Índice de coleta de esgoto e IN016_AE – Índice de tratamento de esgoto de 2002 a 2018 com tendência calculada até 2030. C – Volume de esgoto (em milhões de m³/ano) coletado, tratado e extravasado de 1998 a 2018. D – Taxa de esgoto tratado/coletado de 1998 a 2018. Os números fora dos gráficos representam: em itálico a meta; sublinhados representam a tendência calculada para 2030. A linha tracejada representa a meta do indicador. @ Início da série histórica. * Início do cálculo da tendência. # Dados faltantes. Fonte: http://www.snis.gov.br/.

                O recolhimento e a destinação correta do lixo produzido pela população, aliado às ações de saneamento básico influenciarão diretamente os indicadores de saúde. As diversas taxas relacionadas à coleta de lixo estão apresentadas na figura 3. A série histórica apresenta que desde 2003 a taxa de cobertura regular do serviço de coleta de resíduos em relação à população urbana é bem próximo a 100%. A taxa de cobertura do serviço de coleta domiciliar direta (porta-a-porta) da população total do município também atingiu níveis quase universais a partir de 2011. O mesmo aconteceu com a taxa de cobertura regular do serviço de coleta de RDO em relação à população total do município a partir de 2009. As taxas relacionadas à coleta seletiva estão bem aquém até mesmo de metas modestas, tendendo ainda a valores bem tímidos. Para ampliar a coleta seletiva porta a porta sugerimos ao poder público intermediar a realização de parcerias entre associações de catadores de lixo e demais pessoas de baixa renda com a população residente no município, facilitando e tornando a coleta seletiva um trabalho mais atuante e com proximidade do cotidiano das pessoas.

Figura 3 – Indicadores operacionais de esgotos de 2003 a 2018 com tendência calculada até 2030. IN053_RS – Taxa material recolhido pela coleta seletiva (exceto matéria orgânica) em relação à quantidade total coletada de resíduos sólidos domésticos; IN031_RS – Taxa de recuperação de materiais recicláveis (exceto matéria orgânica e rejeitos) em relação à quantidade total (RDO+ RPU) coletada; IN030_RS – Taxa de cobertura do serviço de coleta seletiva porta-a-porta em relação à população urbana município; IN016_RS – Taxa de cobertura regular do serviço de coleta de RDO em relação à população urbana; IN015_RS – Taxa de cobertura regular do serviço de coleta de RDO em relação à população total do municipio; IN014_RS – Taxa de cobertura do serviço de coleta domiciliar direta (porta-a-porta) da população total do município. RDO: resíduo domiciliar; RPU: resíduo público. Os números fora dos gráficos representam: em itálico a meta; sublinhados representam a tendência calculada para 2030. A linha tracejada representa a meta do indicador. * Início do cálculo da tendência. Fonte: http://www.snis.gov.br/.

Após a análise dos dados conclui-se que os indicadores que atingirão a meta serão: taxa de mortalidade infantil, esgoto, porcentagem de população em domicílios com água encanada, de acordo com a análise de tendência e mantidos o ritmo histórico de melhoria. As metas do Plano Estratégico que provavelmente não serão alcançadas são: porcentagem de cobertura de Equipe de Saúde da Família (ESF), porcentagem de coleta seletiva porta a porta residencial.

Em 2020 nosso planeta foi acometido pela pandemia do novo coronavírus (Sars-Cov-2). Analisando criticamente o contexto atual de pandemia com o cenário econômico, constata-se que além dos processos recessivos e de endividamento do governo, efeitos persistentes sobre a saúde, desempenho educacional e produtividade por até 20 anos ocorrerão depois do período da pandemia, assim, muito possivelmente o cumprimento das metas dos ODS atrasará e talvez alguns podem regredir, como por exemplo o taxa de mortalidade materna, indicador muito sensível a variações. Ademais, parcela da população que ficaram desempregados, estão migrando seus filhos para escolas públicas e fazendo uso do Sistema Único de Saúde, consequentemente aumentando o gasto do governo nessas áreas.

Para propagar as informações relativas a alguns indicadores dos ODS foi criado uma plataforma virtual para acompanhamento da evolução dos ODS para a comunidade em geral. O endereço eletrônico é: https://5f7b0c289abc6.site123.me/.

Alguns problemas foram enfrentados na realização deste trabalho como a dificuldade de comunicação entre orientador e orientandos devido à pandemia, as quais foram superadas por reuniões virtuais bem produtivas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Esse trabalho ajuda a entender melhor questões do cotidiano que necessitam de intervenções para redução das desigualdades sociais, além de contribuir para melhoria da qualidade de vida, aumentando a criticidade da população e a consciência de seus direitos como cidadãos. Percebeu-se que os indicadores de ODS aqui trabalhados são interdependentes entre si e devem ser abordados em conjunto para alcançar as metas propostas.

REFERÊNCIAS

ONU, 2012. Future We Want – Outcome document. Disponível em: http://sustainabledevelopment.un.org/futurewewant.html, acessado em Janeiro de 2020.

Organização Pan-Americana da Saúde. Desenvolvimento Sustentável e Saúde: tendências dos indicadores e desigualdades no Brasil. Brasília, DF: OPAS, 2014. 30 p:. il. (Série Desenvolvimento Sustentável e Saúde, 1).

Contagem. Minas Gerais. Prefeitura Municipal. Secretaria Municipal de Planejamento e Coordenação Geral. Relatório ODM Contagem e os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. Contagem: Secretaria Municipal de Planejamento e Coordenação Geral, Ano 1, nº 1, Julho 2012.

Contagem. Minas Gerais. Prefeitura Municipal. Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Contagem. Disponível em: http://www.contagem.mg.gov.br/observatorio/, acessado em Janeiro de 2020.

Brasil. Ministério da Saúde. Ripsa. Sistema de Informação de Mortalidade. 2020. Dados disponíveis em www.datasus.gov.br. Acesso em novembro/2020.

Brasil. Ministério do Desenvolvimento Regional. Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento. Disponível em: http://www.snis.gov.br/. Acesso em novembro/2020.