PROJETO: “COM AS MÃOS NO BARRO”

PROJETO: “COM AS MÃOS NO BARRO”

Além das paredes da biblioteca, “uma questão de sentir”.

                                                                                                         Por: Célia Marciana Ferreira

No início de outubro de 2018, participei de uma oficina sensorial na qual os oficineiros eram 02 (dois) artesãos com habilidades incríveis. O ponto que mais me intrigou e provocou foi o fato dos dois serem cegos e surdos e, a ausência desses dois sentidos parecia não os incomodar. Alegres e carismáticos, eles diziam que não sentiam falta de algo que nunca tiveram.

Ao voltar para casa, fui tomada por uma inquietação muito forte, pois, na escola onde trabalho estão estudando dois garotos surdos, denominados aqui por “R” e “C”. Ao comentar sobre a oficina, com a intérprete de LIBRAS da escola e com a professora, esses dois garotos estavam atentos e se mostraram muito interessados no assunto também, a intérprete transmitia, simultaneamente, nosso diálogo para eles. Ao final da aula, a intérprete me procurou e disse que o “R” e o “C” queriam saber como o barro secava e não rachava, como acontecia com eles nas brincadeiras da infância.

Como sempre acreditei na democratização da argila, ou seja, todos nós podemos ter a experiência com essa matéria e, também, sempre tive e tenho um interesse muito grande em desenvolver novas habilidades, utilizando a argila com sujeitos que necessitem de atenção especial, veio-me logo a ideia de promover uma oficina de modelagem com esses alunos.

Escrevi um pequeno projeto e apresentei à coordenação da escola. Com o auxílio da intérprete e da professora de LIBRAS, atirei-me por completo naquilo que acreditava. Levei a argila, alguns instrumentos pra começar, preparei a sala e passamos a frequentar a sala de Arte às sextas-feiras, no último horário. A escolha desse dia da semana e desse horário foi cuidadosamente pensada para não gerar mal estar, não seria interessante que os alunos, se sujassem acidentalmente e retornassem sujos à sala de aula. Acreditavam até então, que a argila só poderia ser trabalhada no torno como, segundo eles, viram no filme “Ghost” (1990).

Trabalhamos nas peças por um tempo, a cada semana era uma etapa concluída, indagações iam surgindo, a argila precisa de seu tempo, tem que ter paciência, era assim que eu dizia a eles, temos que aguardar a secagem, lixar a peça, polir, se necessário, e uma das últimas etapas seria a queima em baixa temperatura, que chamamos de “biscoito”, o que não foi possível, devido ao pouco tempo que nos restava. Eu via a sensação de realização no rosto de cada um deles, não só dos alunos “R” e “C” mas, também, da intérprete e da professora de LIBRAS.

Como a oficina foi pensada inicialmente para esses dois alunos, a direção sugeriu que no ano de 2019, seria interessante estender a experiência desse projeto para outras crianças portadoras de necessidades especiais, o que, infelizmente, não foi possível de se realizar por motivos adversos.

Hoje, em minhas reflexões, nesse momento de isolamento social, vejo-me mais impactada em pesquisar e desenvolver novos projetos com argila, que possam atender públicos diversos, com a finalidade de aumentar a concentração e paciência, pois é assim que vejo a argila, uma “aliada de peso”.