Outro modo de olhar, outras possibilidades, nova realidade

Outro modo de olhar, outras possibilidades, nova realidade

Por: Edneia da Silva Faria – Licenciada em Letras

Professora de Língua Portuguesa – FUNEC Inconfidentes

Fomos criados numa cultura baseada em competição, exigências, pressão e muitas críticas. As relações familiares não são diferentes. Nossos pais foram educados sob muita repressão. Quem nunca ouviu a célebre frase, “só de olhar me obedeciam”? Os pais mais bem sucedidos eram aqueles cujos filhos os respeitavam e temiam e, assim, essa tradição vem sendo passada de geração em geração. Atualmente, especialistas e saudosistas deste tempo de obediência e temor, afirmam que os filhos da repressão de outrora se transformaram nos permissivos e perdidos pais de hoje. Quem está certo nesta análise, só o tempo dirá com maior precisão, no entanto, as famílias padecem com muitos conflitos e algo precisa ser feito para que este cenário possa mudar.  O fato é que a maioria de nós ouve e diz muito mais críticas que elogios e/ou estimulações. São horas, dias, até anos de intensos conflitos e dramas familiares, causados por esse hábito de destacar mais o erro e os problemas, que os esforços, os acertos ou as intenções. O tempo passa, e as pessoas passam por ele desejosas de uma felicidade que não sabem como construir.

Sem pretensão de convencimento, julgamentos ou ensino de fórmulas mágicas, propomos um olhar acerca da qualidade de nossas relações, inspirados pela análise do comportamento ou behaviorismo (termo inglês, comportamento), uma das linhas da psicologia que tem por base a análise funcional de comportamentos que se pode ver, registrar e medir para, então, propor meios que possam modificá-los. Esta técnica, apesar de ser comum em intervenções, especialmente, em pacientes diagnosticados com Transtorno do Espectro Autista – TEA é possível ser aplicada com sucesso em várias outras situações, como nas relações familiares, pelos próprios membros das famílias.

Famílias que têm crianças com “TEA” se veem postas diante de radical mudança e necessidade de adaptações, para que a vida flua de forma mais suave e que seus filhos e filhas adquirem habilidades necessárias para seu desenvolvimento como um todo. Os aprendizados são possíveis, devido a uma simples técnica chamada de reforçamento, na qual há o reforço do que é bom, por meio de elogios, brincadeiras, atenção, dentre outros. Isso mesmo, a base do sucesso da Análise do Comportamento Aplicada – ABA, que tanto tem transformado, para melhor, a vida de centenas e milhares de famílias pelo mundo, é reforçar os bons comportamentos e ignorar os não desejados.

Buscar ver e elogiar as ações e esforços das pessoas com quem se convive parece simplório ou, até mesmo, pouco eficaz, entretanto, essa simplicidade aliada a bastante trabalho é o que melhora realidades, por vezes devastadas por ausências, preconceitos e fatalismos, incontestavelmente. O maior dos trabalhos, sem dúvida, é a mudança de comportamento, não só da pessoa com “TEA”, mas também, dos demais membros da família. Sem esta transformação, sem esse olhar que vê, antes de tudo, o potencial de pais, irmãos e demais familiares, e que consequentemente amplia esta visão para todos em sua volta, há pouca melhora e bastante demora. Como num mesmo organismo, se um órgão estiver com problemas outros órgãos podem ser afetados, assim também acontece com essas famílias, se um tiver esse olhar, ou agir como mais “adoecido”, focando no problema, o restante fluirá com maior dificuldade.

Apesar de, para alguns, remeter a mais uma teoria que ignora a complexidade e intensidade das famílias reais, em especial, aquelas em situação de vulnerabilidade social, além da reflexão, busca-se sinalizar para essas possibilidades reais, sustentadas pela ciência, “ABA” e por muito trabalho, para que, em médio ou em longo prazo, possam ser percebidas mudanças e melhoras. As crianças crescem e, com isso, a capacidade de empatia daqueles que estão em sua volta decresce proporcionalmente, assim como em muitos relacionamentos, quer sejam conjugais ou até de trabalho. A maioria das causas desse nosso comportamento, de pelo menos tentarmos entender os outros, vem do olhar que, há gerações, é treinado a ver e/ou dar mais valor ao que não foi feito, dito ou visto.

Há que se reaprender a olhar, sentir e agir, se desejarmos mudar esta realidade. Vivemos num intenso jogo de busca por culpados e/ou responsáveis por nossos dilemas, e tudo continua como antes. Exigimos do outro o que nem nós mesmos, muitas vezes, damos conta ou sabemos fazer. No caso do autismo, para manejar (modificar) um comportamento que atrapalha ou impede a aprendizagem é necessário substituir ou até extingui-lo, reforçar outros que possam contribuir para a melhora e, se for preciso, ensinar novos comportamentos para atingir os objetivos. Então, quem sabe a sua família também possa testar essa possibilidade: colocar-se mais no lugar do outro, tentando entender a função do comportamento dele e, se necessário, ensinar, com modelos, as crianças, os jovens e até os idosos, as possibilidades para uma nova realidade que pode ser mais viável, desde que trabalhemos juntos, em prol de todos!

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