Introdução da Pereskia aculeata na alimentação familiar de alunos da Funec Oitis como fonte de proteínas

INTRODUÇÃO DA PERESKIA ACULEATA NA ALIMENTAÇÃO FAMILIAR DE ALUNOS DA FUNEC OITIS, COMO FONTE DE PROTEÍNAS

Nilza Aparecida Alves Cardoso Clarindo1; Débora de Castro Reis Maciel2 ; Luana Graziela Costa Machado3

RESUMO

A Pereskia aculeata, popularmente conhecida por ora-pro­-nóbis, é classificada como hortaliça não convencional, segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Temos a finalidade de introduzir a hortaliça não convencional, como uma alternativa de consumo de nutrientes essenciais para a saúde dos indivíduos, principalmente para as famílias dos alunos da Funec Unidade OITIS, do bairro Oitis, Contagem/MG. Visando tornar esta hortaliça mais conhecida, devido a sua facilidade de cultivo e riqueza em nutrientes, os participantes do projeto receberam mudas de Pereskia aculeata e foram incentivados a plantá-las em suas casas. Receberam pequenas porções de Pereskia aculeata colhidas e prontas para o consumo, assim como receitas de preparo. Espera-se que a incorpo­ração dessa hortaliça na elaboração de alimentos possa contribuir para a manutenção da saúde do indivíduo, bem como para a prevenção de doenças e possíveis carências nutricionais. Ao final do trabalho, iremos propor uma cartilha educativa sobre a Pereskia aculeata, sua forma de cultivo, informações nutricionais, receitas de fácil preparo, a fim de divulgar e ampliar o conhecimento desta hortaliça não convencional , de baixo custo e muito saborosa. A dieta alimentar dos participantes está distante do ideal, uma imposição da condição econômica e social das famílias, dos costumes e da vida agitada, característica dos novos tempos.

Palavras-chave: Pereskia aculeata; Nutrientes; Saúde.

ABSTRACT

The Pereskia aculeata, popularly known as “ora-pro-nóbis”, is classified as a non-conventional vegetable, according to the Ministry of Agriculture, Livestock and Food Supply. Our purpose is to introduce the consumption of this non-conventional vegetable, as an alternative for essential nutrients utilization to improve the health of the community, mainly for the families of students of Funec Unit OITIS, in Contagem, Minas Gerais. In order to make this vegetable better known due to its easy cultivation and nutrient richness, the project participants received seedlings of Pereskia aculeata and were encouraged to plant them in their homes. They received small portions of Pereskia aculeata harvested and ready for consumption, as well as cooking recipes. It is expected that the incorporation of this vegetable into the diet of the participants contributes to the maintenance of their health, as well as the prevention of diseases and nutritional deficiencies. At the end of the work, we will provide an educational booklet about Pereskia aculeata, containing its form of cultivation, nutritional information and easy-to-prepare recipes in order to disseminate and expand the knowledge of this low-cost and very tasty non-conventional vegetable. Participant’s diet is far from ideal, an imposition of the economic and social condition of families, customs and hectic life, characteristic of the new times.

Keywords: Pereskia aculeata; Nutrients; Health.

  1. INTRODUÇÃO

Hortaliças que possuem distribuição limitada e, muitas vezes, res­trita a determinados locais ou regiões são classificadas segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, (2010), como hortaliças não convencionais e exercem grande influência na alimentação e na cultura de populações tradicionais e rurais. Essas espécies não estão organizadas em uma cadeia produtiva, dife­rentemente das outras hortaliças convencionais, como batata, tomate, repolho, alface, entre outras. Essas hortaliças não despertam o interesse comercial de empresas de sementes, fertilizantes ou agroquímicos, fazendo com que o acesso sobre forma de cultivo, valor nutricional e utilização na alimentação seja restrito e não transmitido às demais populações (MAPA, 2010).

Entre a vasta diversidade de espé­cies encontradas no Brasil, merece destaque a Pereskia aculeata Mill., popularmente conhecida como ora-pro-nóbis ou por outros nomes populares, como carne-de-pobre, carne-de-negro, lobrobó, lobrodo, guaiapá, groselha-da-américa, cereja-de-barbados, cipó-santo, mata-velha, trepadeira-limão, espinho­-preto, jumbeba, espinho-de-santo-antônio e rosa-madeira (QUEIROZ et al., 2015).

Quando se desenvolve, a planta pode ser utilizada tanto na forma de proteção, quanto na alimentação (MERGAREJO NETTO, 2014). Quando as hortaliças não convencionais são utilizadas, a dieta pode adquirir maior valor nutricional em relação a vitaminas, minerais e proteínas. Segundo Kinupp e Barros (2008), as frutas e hortaliças não convencionais apresentam mais vantagens em relação às plantas domesticadas, pois apresentam teores maiores de minerais e proteínas, além de serem mais ricas em fi­bras e compostos com funções antioxidantes. Por possuir folhas suculentas e comestíveis, essa hortaliça pode ser utilizada em diversos modos de preparo, como, por exemplo, inclusão em farinhas, saladas, re­fogados, tortas e massas alimentícias como o macarrão (ROCHA et al., 2008).

A parte comestível da planta são suas folhas. Seu preparo é extremamente simples, como qualquer verdura que adquirimos, obviamente, devemos lavá-las bem. É preciso que se utilize uma grande quantidade, pois, após o preparo, seu volume se reduz bastante.

Seu sabor é neutro, ou seja, não é picante, nem ácido, nem amargo. Tem uma textura macia, fácil de mastigar. Ela poderá fazer parte de recheios, saladas, refogados, sopas e onde mais sua imaginação culinária permitir.

É possível seu cultivo em ambiente doméstico, uma vez que pega bem em qualquer tipo de solo, não exige cuidados específicos e se propaga com facilidade.

Considerando a desigualdade econômica presente no país, alguns grupos populacionais têm aces­so limitado a alimentos que são fonte de proteína animal, devido à precária situação financeira. Sendo assim, a identificação de espécies vegetais que sejam fontes de proteínas e o incentivo ao cultivo e consumo dessas espécies podem ser uma forma de contribuir para a redução das deficiências nutricio­nais dessas populações e colaborar com alternativas nutricionais para populações com hábitos e dietas alimentares seletivos, como os vegetarianos (MARTINEVSKI et al., 2013).

A Funec OITIS, escola de Ensino Médio, está inserida numa região da periferia do município de Contagem, com várias famílias de baixa renda.  Nesse contexto, considera-se relevante conseguir proporcionar, através da Pereskia aculeata, uma alternativa de consumo de nutrientes, principalmente de proteínas, pois, muitas vezes, são componentes escassos na composição da dieta da população. Além disso, por se tratar de um projeto que incentiva as famílias a cultivarem em pequenos espaços, ou até mesmo em vasos, não acarreta grandes gastos financeiros.

O objetivo do projeto desenvolvido na FUNEC OITIS foi conscientizar a comunidade escolar, inclusive, as famílias dos estudantes, da importância de buscar alternativas nutricionais e, em particular, apresentar o ora-pro-nóbis como fonte protéica. Pretendeu-se, também, incrementar a doação de mudas de Pereskia aculeata e incentivar a divulgação dos seus benefícios nutricionais para mais famílias de alunos da escola e de seu entorno, colaborando, até mesmo, na multiplicação  da planta, evitando a sua extinção.

2. METODOLOGIA

Após sua idealização, o trabalho seguiu uma sequência lenta, uma vez que, o elemento central do projeto é um ser vivo, com biologia e ritmos próprios, a hortaliça não convencional Pereskia aculeata, conhecida na região de Contagem como ora-pro-nóbis, ou carne-de-pobre.

Após a poda de um arbusto de Pereskia aculeata, foram produzidas mudas, num total de dez, para início do trabalho. Preparada a terra, com areia e terra vegetal, as estacas foram plantadas em caixas de leite, molhadas regularmente até o desenvolvimento das primeiras folhas e enraizamento das mudas, a partir de pequenas estacas. Em seguida, foi confeccionado e aplicado um questionário socioeconômico e anamnese nutricional, para escolha e para conhecer um pouco melhor os participantes do projeto. O questionário foi aplicado, individualmente, para não haver interferência das respostas entre os entrevistados.

Na próxima etapa, foram entregues as mudas aos participantes do projeto, acompanhadas por instruções básicas de como plantá-las, local adequado para o plantio, juntamente com receitas de ora-pro-nóbis amplamente divulgadas e testadas, de uma forma geral.

A porção informada aos participantes, e recomendada para ser ingerida, trata-se das folhas e partes tenras do caule, apenas, às quais são utilizadas em chás, bolos, omelete, sopa, salada e onde mais sua criatividade quiser. Além disso, foi realizado o acompanhamento das mudas plantadas pelos alunos participantes do projeto e criado um grupo do WhatsApp, denominado “Plantar e comer ora-pro-nóbis”.

Uma nova poda foi realizada e, aos participantes do projeto, foram oferecidas pequenas porções de, aproximadamente, 600 gramas de folhas de ora-pro-nóbis, bem como uma receita de escondidinho de ora-pro-nóbis.

Com as estacas recolhidas, após a poda do arbusto de ora-pro-nóbis, foram feitas 80 (oitenta) mudas  e as mesmas foram plantadas no espaço da Escola Municipal Albertina Alves do Nascimento, próximas ao muro, onde a Funec coabita. Os participantes utilizaram o ora-pro-nóbis na refeição e, alguns enviaram ao grupo “Plantar e comer ora-pro-nóbis” as fotos do prato.

Aos alunos participantes do projeto foi aplicado novo questionário, agora com questões relacionadas ao ora-pro-nóbis, seu consumo e a aceitação do mesmo

3. RESULTADOS

Para impressão geral, foi calculado o índice de aceitação de ora-pro-nóbis (%), conforme a resposta dada em questionário (se gostaram, ou não, de comer ora-pro-nóbis), de todos os participantes.

Gráfico 01: Refeições em que o Ora-pro-nóbis foi introduzida

Gráfico 02: Percentual de pessoas que comeram ora-pro-nóbis

Gráfico 03: Percentual de pessoas que gostaram de comer ora-pro-nóbis

Gráfico 04: Percentual de pessoas que ofereceram resistência para experimentar ora-pro-nóbis

4. DISCUSSÃO

Os resultados nos indicam que a introdução do ora-pro-nóbis na dieta dos participantes foi bem aceita, sendo que a maior parte das receitas foi realizada e consumida no almoço.

Algumas dificuldades foram enfrentadas, durante o desenvolvimento do trabalho de pesquisa para verificação das possibilidades de introdução da Pereskia aculeata na dieta alimentar dos alunos da Funec OITIS. A primeira delas foi a resistência dos estudantes em aceitar o convite para participar da pesquisa, ou seja, receber a muda, plantar e acompanhar o desenvolvimento da planta. Acreditamos que, por ser um trabalho que demandaria vários meses e um acompanhamento sistêmico da planta, os alunos não quiseram assumir o compromisso de dar o retorno necessário que o projeto exigia. Porém, ao fim do trabalho, percebeu-se a participação dos alunos, bem como a continuidade das práticas culinárias que tinham como ingrediente o ora-pro-nóbis, atividade esta que caracterizou a introdução mais efetiva dessa hortaliça na rotina alimentar dos participantes.

Após a implementação do projeto, realizou-se uma discussão sobre a viabilidade do cultivo da Pereskia aculeata nas casas dos alunos da Funec OITIS, tendo como perspectiva, a utilização do ora-pro-nóbis como alimento de baixo custo, fácil plantio e alto valor nutricional. Além de oferecer as mudas e incentivar o plantio, foi possível oferecer receitas, divulgadas na internet, de preparo da Pereskia aculeata Mill. A hortaliça ora-pro-nóbis passou a ser conhecida pelos jovens alunos da Funec OITIS, que multiplicaram o conhecimento sobre ela, por meio da cartilha produzida durante o trabalho.

5. CONCLUSÕES

A dieta alimentar dos participantes está distante da ideal, uma imposição da condição econômica e social das famílias, dos costumes e da vida agitada, característica dos novos tempos.

Não foi tão simples como pensávamos ser, no inicio da pesquisa, a introdução de alimentos novos na dieta das famílias dos alunos da FUNEC OITIS. Existe uma resistência natural ao que não se conhece. Apesar de muitos nunca terem ouvido falar em ora-pro-nóbis, essa hortaliça é usada em festivais de gastronomia em várias cidades próximas à Contagem. Os alunos participantes do projeto nunca haviam participado de nenhum desses festivais e nem sabiam da existência deles, onde o ora-pro-nóbis é o ingrediente central. Na casa da maioria dos integrantes do projeto, nunca haviam  usado o ora-pro-nóbis como alimento, apenas 20% conheciam o ora-pro-nóbis e 80% desconheciam a hortaliça.

Pensávamos que a aceitação do ora-pro-nóbis fosse imediata, o que não aconteceu em todas as famílias dos participantes do projeto; em algumas, as mudas até morreram.

Em relação à introdução do ora-pro-nóbis em alguma refeição da família, nossa insistência foi determinante para que o prato fosse feito e registrado na forma de fotografia.

As mudas doadas no início da pesquisa estão se desenvolvendo, mas ainda não oferecem folhas nas quantidades necessárias para uma refeição.

Acreditamos que, divulgando as propriedades nutricionais, principalmente como fonte importante de proteína, associado à facilidade de cultivo e, sobretudo, à facilidade de preparo do ora-pro-nóbis, essa hortaliça não convencional poderá fazer parte da dieta e passar a ser mais conhecida em nossa região.

Durante a execução do projeto, o diretor da Escola Municipal Albertina Alves do Nascimento, onde a Funec Unidade Oitis está inserida,  interessou-se pelo trabalho e pediu que fossem plantadas mudas de Pereskia aculeata ao longo do muro que protege a escola, para servir de cerca viva e, também, utilizar as folhas na merenda dos alunos da escola. Assim, na décima parte do trabalho, 80 (oitenta) mudas foram plantadas na escola, no período de chuva, o que favoreceu o sucesso do seu plantio. Sendo assim, esperamos garantir a não extinção desta hortaliça na nossa região, uma vez que a escola tem um trânsito grande de pessoas e, a partir das mudas plantadas, outras mudas poderão ser produzidas.

6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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